* toda a vida a gente usa a vida como quem usa uma ninharia *toda a vida a gente espera na vida. espera. espera.
sobram-nos as palavras
entre o dia e a noite. na elíptica extensão desta madrugada
tacteio-me.
acontece-me reconhecer no mundo o mundo, mas não a mim. acontece-me ver as flores mas não saber em que exacto momento deixar o nariz aberto ao seu aroma. acontece-me frequentemente o néon, ou as luzes fortes, ou a estátua equestre de sonhos roubados.tempos ausentes dos tempos, presentes nos tempos. sobre o escândalo, sem escândalo, de uma perna envolvendo a outra perna. os ninhos que existem no corpo. os nichos
que em que o corpo se abre. e devolve um gesto. acontece-me pensar que a vida mergulha a pique
no tempo. e deixa rasto de saliva. de suor. ecos de água. uma casa. uma casa
corpo. uma casa gesto. verbo. suo sempre um sonho quando a noite me acontece. e claramente
vislumbro essa distância. entre ter e ser.
e o gesto possível entre mim e ti. digo-te da casa que nos construí para atravessar
esta distãncia gelada. um fio de pensamento. as memórias de dias
futuros assolam-me. como espectros de paredes nuas. afixo-me
num sentimento. numa desejada representação de personagens.
para que a luz nasça aí e deixe um rasto de importância. e não me reste na boca
esse sabor inconfundível
da impalpabilidade. apresento-te o meu corpo. derradeira esperança de me
confundir na fronteira entre o existir. e o não existir. ** deito-lhe um sonho dentro... **
como vela abrindo caminho por entre a noite. e digo-te deste sal
que carrego e se esboroa entre a pele e o suor. desejaria
um céu. no lugar do mar. uma noite de estrelas em cadências
de abraços. no lugar do abismo que este mar
de sal e marés
abre no meu olhar.
não há dor maior que este mar rasgando o ser. nem verdade
maior que este sal que me escreve na pele um nome. adiada forma de ser.
(
nem a noite imponente deslumbre maiorque o céu que dorme nos teus braços)
e como se sempre soubesse que
apesar de tudo
vou voltar a uma qualquer casa penso-te. há sempre um aconchego uterino
neste pensamento. o silêncio
todo habitado por uma água doce. bocas esculpindo. no vaivém dos lábios. esculpindo. o tempo
todo em espirais. descendo.
descendo. descendo. à raiz de mim. à raiz de ti.
a metamórfica invenção dos dias. das noites. nos dias. nas noites. em estratos
tão perfeitos da matéria de mim. da matéria de ti. vagueia
na casa um eco. um eco desse tempo para lá do tempo.
do silêncio em que o tempo se inventa. é um desespero de mãos vazias.
de bocas em que as palavras morrem e deslizam
lentamente
tão lentamente
entre os dentes. não sei porque é que as palavras não nascem no tempo
do silêncio. como verbos de predição. seria
deslumbrante falar desta água doce. do vaivém desta água doce. deslumbrante falar
esses nomes líquidos que nos entregamos.
mas
(
não é a morte mais silenteque o dia sem ti )
** decerto não passamos de ecos **. decerto a voz em que nos dizemos
é apenas esse eco do tempo. do tempo petrificado dentro de nós. como uma maravilha
apenas esboçada estendemos uma mão
outra mão. a tentativa de apagar esse vazio que sempre se cria quando
o dia emerge. a noite deixa-me no corpo este halo de solidão. um eco
ressoa-me nas entranhas. e ** até as pedras deitam tinta **. até as pedras
no lugar da alma se escorrem nessa tinta. lágrimas de ossos. lágrimas
de roídos ossos. as marés salgadas das noites. as marés salgadas dos dias. a distância
entre o corpo e o lugar do corpo. alma evadida. sangue equivocado correndo por dentro
dos olhos. ambiciono teu sangue. teu ser. estar-te. por dentro dos teus olhos estar-te.
(
diz-me da casa como sangue e como bocamusical amante do branco, no branco,das pequenas pedrinhas incrustradase das conchas, na areia das parede )
pudera eu querido falar-te essas palavras casa. dessas paredes pequeninas
em que a cal pigmentada da pele se espalha quente
quente entre nós. mas não. ** a pedra ainda espera dar flor ** . está frio.
é noite e deambulo entre a luz que se anuncia
e um silêncio incrustado no sangue. apenas esse amargor
de silêncio. e na boca uma areia vai gastando essa língua por inventar.
como praia de grãos preciosos. por descobrir. é uma existência misturada
entre uma flor e a flor que se adivinha numa pedra. vês? esse âmago de flor
na pedra? a raiz de maravilha? somos nós. talvez. aprisionados
no silêncio do tempo. talvez. naufragando neste mar de palavras
ainda por dizer. sobra-me este espaço entre mim e mim. sobra-me
esta pele nua. este líquido interior. um vagueiro de olhos
em espanto de ser.
(
diz-me da terra como dos líquidosdo nevoeiro, que não é uma coisanem outra, espuma de céu e de bichonas mãos que rasgam e roem )
digo-te. da tentativa derradeira de me desentranhar nessa flor. corola
de côncava maravilha para te receber. abro-me na terra toda
e o céu o bicho ressoam em mim. num eco líquido. numa espuma translúcida
de terra. ** a parte exterior é maravilhosa, a parte subterrânea
é mais maravilhosa ainda
é a única raiz que se conserva intacta ** . há um tubérculo de espanto na origem
desta flor. uma petrificada memória. escondida entre um seio
e outro
uma melopeia que repete o silêncio. como se fosse aí
nesse silêncio habitado pelo nosso respirar que a vida se adivinhasse. como
som do dia. como som da luz e do dia. que nos falta para florescer? que nos falta?
não há neste silêncio som mais essencial. não tem esta inflorescência
mãos mais frutuosas.
nem o mar véu mais puroque a tua pele nua. e uma maravilha assim
feita de misturados ecos
de misturadas raizes
deveria estender-se como teia das horas. e então aprisionar-nos. um no outro. como
metamorfose de bicho em pedra. de flor em pedra. pólen do tempo. suor dos dias.
e agora
** estende fios no chão entre as árvores, e as árvores todo o inverno se
desentranham em flor **
os poros escorrendo essa seiva primitiva
os olhos de terra desvendando os mistérios. acontece-me pensar que
se a tua ausência se apagar e tu cresceres como luzeiro renomeado
será possível renovar
o som. emergirmos como raio fecundando o dia. e nesse claror
ainda que breve
deixar que a essência de mim
de ti
se confundam. e a espiral dos dias das noites
nos deixe assim.
a flor do tempo. permanecendo.
(
diz-me de tudo como no ventreo eterno retorno, a respiração por dentro, os romances e as personagenspor quem te apaixonas, que te amam. )
-
diz-me, ou então fala, que eu escuto -
( sim. eu sei. eco. eco. só eco )
a casa de blimunda e baltasar com o
jorge e o
nuno. (
húmus, de raul brandão, no horizonte adivinhado )